Gostaria de partilhar aqui a crónica de Fernando Alexandre que apresenta algumas ideias que me parecem merecerem muita reflexão:
Portugal, ou, pelo menos, os governos de Portugal, têm manifestado uma certa obsessão em imitar países como a Irlanda e a Finlândia. Copiar o “modelo” de desenvolvimento desses países parece ser para os nossos governantes a forma mais rápida de aproximar Portugal dos níveis de desenvolvimento da União Europeia. A ideia de copiar outros países europeus mais desenvolvidos é antiga, vem pelo menos do século XIX. A obsessão com a educação, que também já é muito antiga e não impede que o nível de iliteracia em Portugal atinja ainda hoje valores elevadíssimos, tem certamente contribuído para a referência, muito comum entre os nossos políticos, do exemplo da Finlândia – o país com taxas de leitura mais elevadas do mundo, mas também com um elevado domínio nas ciências, nomeadamente, matemática e tecnologias da informação, e também da língua inglesa.
A relação entre crescimento e educação tem sido bastante discutida. Os países mais desenvolvidos tendem a apresentar indicadores do nível de educação da população mais elevados. O problema é saber qual é a relação de causalidade que explica esta correlação positiva: será que maior educação origina maior crescimento? Ou será que é o maior crescimento que possibilita atingir níveis mais elevados de formação? Se a resposta ao problema for a primeira, então um país que se queira desenvolver poderá fazê-lo investindo em educação. Se a resposta ao problema for a segunda, então teremos que procurar a cura para o fraco desempenho económico noutro lado.
Uma visão – que não é nova, mas tem ganho muitos adeptos ultimamente – relaciona o crescimento dos países com a qualidade das suas instituições. O funcionamento da economia de mercado, que a história do século XX mostrou ser fundamental para o aumento da riqueza dos países, não é possível sem a existência de um enquadramento legal e dos meios que tornem esse enquadramento efectivo. Os comportamentos ilegais são mais comuns nalguns países do que noutros. Alguns estudos, por exemplo, o Índice de Opacidade publicado pelo MIT, colocam a Finlândia nas melhores posições, ficando Portugal bastante distante. Ou seja, não é apenas nos índices da educação que estamos atrasados em relação à Finlândia. Um exemplo destas diferenças entre Portugal e a Finlândia ficou evidente há cerca de dois anos quando um aluno de uma universidade portuguesa a frequentar o Programa Erasmus, foi expulso da Universidade de Helsínquia por ter desrespeitado as regras de conduta num exame: foi apanhado a copiar. A posição da universidade finlandesa, na altura, foi muito clara: cortou relações institucionais com aquela Universidade portuguesa. O aluno, que teve um comportamento reprovável e prejudicial para os colegas (que deixaram de ser recebidos na Finlândia), não foi expulso da Universidade portuguesa em que se encontrava matriculado.
Esta não é uma diferença de somenos entre os sistemas de ensino dos dois países
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A corrupção e o incumprimento das normas têm custos importantes para as sociedades. Em primeiro lugar, a sociedade tem de gastar mais recursos em actividades relacionadas com a justiça.
Em segundo lugar, uma parte significativa dos recursos humanos dedica-se a actividades ilegais, e a expedientes para contornar a lei, em vez de se ocupar em actividades úteis à sociedade.
Finalmente, a impunidade dos infractores reduz os incentivos para que os outros elementos da sociedade tenham iniciativas que contribuam para o bem-estar geral. No caso do estudante-cábula, a sociedade tem ainda o custo de gastar recursos a “educar” alguém que não aprendeu o que devia aprender, ou seja, é mais um exemplo de dinheiro público mal gasto.
A estratégia do governo português, de usar a Finlândia como referência, parece assim fazer sentido. No entanto, não nos podemos limitar a decretar o ensino de excelência da matemática, do inglês e da informática e a afectar-lhe generosos recursos financeiros. O sucesso desta estratégia só será possível com uma cultura de trabalho e de responsabilidade, num contexto institucional que forneça os incentivos adequados.
Por outras palavras, a grande questão é: como transformar as instituições portuguesas de forma a promoverem efectivamente o desenvolvimento do país? Para que isso aconteça é necessário que as instituições funcionem de forma transparente e eficiente, reduzindo as oportunidades para a corrupção e a fraude. Para o problema das fraudes na realização de exames, uma solução possível, ainda não prevista nos regulamentos das universidades portuguesas, seria estabelecer uma regra: quem for apanhado a copiar é expulso da Universidade. Se esta regra for inscrita nos regulamentos, e a sua aplicação for credível, o número de alunos a cometer fraudes nos exames diminuirá substancialmente e a eficiência na utilização dos recursos públicos aplicados na educação dos portugueses sairá reforçada.
No entanto, e porque também há evidência de que os mecanismos punitivos não são por si só totalmente eficientes, uma solução complementar será ensinar não apenas mais matemática aos alunos portugueses, mas ensinar-lhes também ética.
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